Uma equipa de cientistas
europeus, de que faz parte
um investigador da
Universidade de Lisboa (UL),
descobriu o primeiro planeta
habitável fora do sistema
solar, que apresenta algumas
características parecidas
com a Terra. No longínquo
Gliese 581C, a temperatura
deverá variar entre os 0 e
os 40 Celsius e pode existir
água em estado líquido. Mas
o ser humano, por enquanto,
só poderá chegar lá através
dos argumentos de Hollywood.
No
antigo edifício Observatório
Astronómico de Lisboa, o
investigador Xavier Bonfils,
apresentou aos jornalistas o
resultado pesquisa de
planetas parecidos com a
Terra, através do
espectógrafo HARPS (High
Accuracy Radial Velocity for
Planetary Searcher), situado
no observatório de La Silla,
no Chile, que pertence ao
ESO (Observatório Europeu do
Sul).
Bonfils,
um francês que está em
Portugal há um ano, a
trabalhar na Centro de
Astronomia e Astrofísica da
UL, explicou que este
planeta foi descoberto «há
dois meses» na estrela
Gliese 581, uma anã vermelha
já conhecida desde 2005, que
se situa na constelação da
Balança, a 20,5 anos-luz da
Terra, uma distância que
torna impraticável qualquer
contacto directo, pelo menos
para já, aquela região do
Universo.
Sabe-se
ainda que este corpo celeste
tem um raio 50 por cento
maior do que a Terra e cinco
vezes a sua massa. «Não é um
planeta gasoso, como Jupíter
ou Saturno, pode haver água
e sabemos de certeza que as
temperaturas variam entre os
0 e os 40 graus Celsius»,
frisou o «caçador de
planetas» da UL, apontando
que estas temperaturas foram
determinadas através da
distância calculada entre a
estrela e o Gliese 581C.
«Não é possível observar
directamente este planeta»,
frisou o investigador,
referindo ainda que não
existe tecnologia que
permita determinar «se
existe vida ou não lá»,
porque ainda não se sabe se
tem atmosfera. Essa
possibilidade poderá só vir
a acontecer talvez por volta
de 2020.
A
milhões de anos de viagem
E se fosse enviada uma sonda
para procurar vestígios de
vida extraterrestre neste
mundo longínquo, quando
tempo demoraria a chegar?
Neste momento só há uma
resposta: «Não podemos
viajar até lá», explicou Rui
Agostinho, director do
Observatório Astronómico de
Lisboa, recordando que «as
sondas humanas que foram
mais longe são as Voyager,
que demoraram dez anos a
chegarem a Plutão». «Se elas
mantivessem a mesma
velocidade, demorariam cerca
de 700 mil anos a ir a
estrela mais próxima e esta
estrela [Gliese 581] que
está a cerca de cinco vezes
isso. Portanto estamos a
falar da escala dos milhões
de anos de viagem»,
explicou.
É
possível, contudo, num
exercício de imaginação,
vislumbrar um pôr-do-sol
magnífico. Apesar da estrela
que serve este planeta ter
uma massa três vezes
inferior à do Sol, a
proximidade entre os dois
corpos celestes faria com
que ela parecesse muito
maior, vista do Gliese 581
C. Vinte vezes maior.
Esta
descoberta pode ser apenas o
início de uma série de
planetas parecidos com os
nossos a serem inscritos nos
livros de ciências, já que
equipa formada por
cientistas da Suíça, França
e Portugal está a seguir
outras cem estrelas com as
características da Gliese
581, que com massas menores
tornam mais fácil a detecção
de planetas na sua zona
habitável, já que as
técnicas indirectas do seu
estudo, funcionam melhor.
Para Rui Agostinho esta é
uma descoberta que «faz
palpitar o coração» da
comunidade científica, já
que descobrir planetas
habitáveis é um sonho da
humanidade». Mas, por agora,
continuará a ser um sonho, a
uma eternidade de distância,
preservado pelas medidas do
Universo.